Sexta-feira, 28 de Novembro de 2014
28.11.2014 - Por Fora de Série, às 18:00

 

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Fotografias de Paulo Alexandre Coelho 

 

A gravata é protagonista da nova ‘app’ da Hermès. Fomos à procura de um ‘modern gentleman’ para a experimentar…

 

A Hermès lançou, em Julho, a “Tie Break”, uma aplicação dedicada à gravata, que faz uma divertida mistura de jogos, ‘cartoons’, imagens, catálogos e dicas úteis, entre outros. A cada gravata que se “puxa”, é revelada uma surpresa diferente, como, por exemplo, um vídeo que mostra como as peças são feitas. A Fora de Série convidou o dentista Miguel Stanley para experimentar a aplicação. Fomos ter com ele à Clínica White, em Miraflores, para tirar as impressões. Com 41 anos, o Dr. White está mais sóbrio. Continua, no entanto, em constante movimento, a participar em conferências em várias cidades pelo mundo fora e a partilhar o seu trabalho na comunidade médica internacional. O seu próximo projecto: promover Portugal como um destino turístico para medicina dentária. Pela sala de espera da clínica, é visível que os seus pacientes vêm de vários pontos do mundo.

Como é que costuma escolher a gravata?

Escolho em função do fato que estou a usar e do meu ‘mood’. O meu negócio é muito sóbrio. Quando estou a falar com alguém, quero que a pessoa se foque naquilo que tenho para dizer, não na forma como estou vestido.

Prefere cores sólidas ou padrões?

Cores sólidas. Mas um bom padrão, que não é fácil de encontrar, faz toda a diferença. Gosto de padrões clássicos e simples, como xadrez ou às bolinhas. Mas estou a mudar… Comprei o meu primeiro par de meias malucas há umas semanas e tenho uma gravata com ases de paus.

 

Mais larga ou fina?

Não gosto das largas. Ultimamente, como tenho usado fatos mais cintados, a gravata mais fina condiz melhor. Mas é uma questão de gosto… e este muda de país para país. Em Londres a gravata larga é a mais aceite, enquanto em Nova Iorque ou Paris é a fina.

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Qual é o melhor nó?

Depende. Com a gravata mais larga, utilizo o nó ‘windsor’ e com a gravata estreita utilizo o simples.

Faz ideia quantas gravatas tem em casa?

Devo ter uma 22. Agora 23.

Muito preciso! Como é que as guarda?

Tenho uma coisa que me ofereceram no Natal, daquelas que na altura parecem uma estupidez, o ‘tie rack’, que tem vários arames. Cabem lá todas.

Costuma usar gravata?

Quando vou a Paris e Londres, sim. Em Portugal não, a não ser num casamento. Como estou sempre a operar na clínica, faço cinco ou seis cirurgias por dia, não é prático usar gravata e ter de trocar de roupa. Mas gosto de usar.

Começou a usar gravata muito cedo, no colégio. Não ficou traumatizado?

Não, porque era daquelas com elástico. Mas eu fazia questão de usar as de nó. Tenho boas recordações. O meu avô, que era inglês, dizia sempre que um jovem soldado sabe fazer o seu nó e ensinava-me. Também vou ensinar o meu filho, um dia.

Que momento prefere, fazer o nó da gravata enquanto se arranja de manhã ou tirá-la depois de um dia de trabalho?

Ambos têm o seu valor. Preparar para a guerra tem um seu quê de importante e descansar depois da batalha também. Napoleão Bonaparte bebia sempre champagne antes das suas campanhas e pediu aos seus engenheiros para inventarem a estrutura metálica que mantém a rolha, porque as estas saltavam sempre. Isto para explicar que champagne se bebe sempre: ou para afogar as mágoas ou para celebrar as vitórias. Tirar a gravata depois de um bom dia é uma sensação de missão cumprida e, se o dia não correu tão bem, de alívio.

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Teve a oportunidade de experimentar a aplicação da Hermès. Quais foram as suas impressões?

Quando me falaram de uma aplicação sobre gravatas pensei que estavam malucos. O que é que há para dizer sobre gravatas?! Fiz o ‘download’ e achei que era útil e que tinha um pouco para todos, por exemplo, para alguém que não saiba fazer o nó de ‘windsor’. Quem gasta dinheiro nestas peças de roupa, que são autênticas jóias, pode aprender a usá-las da melhor forma. A aplicação também mostra como é que elas são feitas e tem uns pequenos jogos, que me deram algum prazer na minha viagem, hoje de manhã, de Londres. Depois, tem as últimas tendências de moda.

Mesmo para um veterano como o Miguel, dá para aprender?

Claro que sim. Eu nem sabia que se fazia um nó invertido. Aprendi também como fazer diferentes cachecóis ter aquele aspecto desleixado, mas arranjado. A aplicação ajuda a entender os passos que são tomados para construir esta peça magnífica, mostrando a excelência do produto e do artesanato. Isso é importante e traduz-se para a minha profissão. Sou um fanático pela qualidade dos materiais que utilizo. Isso corresponde ao valor de tratamento, não ao preço.

Qual é a sua ligação à tecnologia?

Total. Raramente a uso para fins de entretenimento. A tecnologia serve para estar sempre presente, mesmo quando não estou na clínica. Posso falar com clientes em todo o lado e receber fotografias no meu iPhone. Consigo fazer uma chamada de Skype e dar a minha opinião instantânea, em qualquer parte do globo. Hoje em dia é impensável, para mim, ter sucesso nesta área sem estar ligado às tecnologias.

Estão na vanguarda da tecnologia?

Sempre estivemos. A medicina dentária é um pouco como a fórmula 1: se não se está na vanguarda está-se a perder a corrida. Como não tenho uma rede de clínicas, consigo sempre investir nesse aspecto. Uma pessoa não pode dizer que é o melhor quando utiliza tecnologias de há 10 anos.

Tem curiosidade em relação ao Google Glass?

Sim. Filmo muitas das minhas cirurgias, por causa das palestras. Hoje em dia até há uma indústria de pessoas que pagam ver aquilo que nós andamos a fazer. É algo que estamos a desenvolver.

Neste momento qual é o seu foco?

A felicidade é o meu ‘business plan’. Se os meus clientes, fornecedores, equipa, patrões, empresas com quem trabalho e potenciais investidores estão felizes, é porque as coisas estão a correr bem. É a sustentabilidade de qualquer projecto.

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Sei que tem como objectivo fazer de Portugal um destino de turismo dentário...

Os dentistas portugueses e os médicos em geral são muito bons. Temos a maior concentração de dentistas per capita da Europa dos 27. São demasiados no país, o que significa que os bons têm de ser muito bons para estar cá em cima. Temos de pedir ajuda ao Estado e outras entidades, para pôr Portugal no mapa.

Porquê este projecto?

Os dentistas andam muito infelizes, muito críticos. Não há trabalho para toda a gente e a crise veio dificultar a vida. Qualquer gigante na indústria é criticado, porque está a tirar o trabalho a alguém, Em vez de deixar de trabalhar era mais interessante arranjar trabalho para os outros. Mais uma vez, o objectivo é a felicidade. Se os meus colegas estão felizes, deixam de se chatear uns aos outros e fica tudo mais positivo. Portugal precisa mais disso, de pessoas que não pensam só na sua própria carteira, mas naquilo que pode realmente beneficiar a nação, os cofres do estado e todas as pessoas envolvidas. Normalmente olha-se para a sustentabilidade como um carimbo de ‘marketing’. Mas a verdadeira sustentabilidade é a felicidade de todas as partes envolvidas.

Que estratégia delineou?

A ideia era juntar os 500 melhores dentistas do país. Os que trabalham com bons materiais, técnicos e laboratórios, que nunca foram alvos de uma queixa, não têm um processo criminal, nunca foram expulsos da ordem e têm uma esterilização aceitável... Não é um clube à parte, mas, sim, um grupo de pessoas que preenchem certos critérios, que não vão prejudicar a imagem de Portugal.

Quem é que faz essa avaliação?

Vou convidar um corpo clínico e científico para me ajudar nisso.

Alguma meta?

É um projecto para já ser público no fim do ano.

Pretende divulgar o projecto?

Não. Acho que é um programa tão interessante que a imprensa nos vai ajudar com isso.

Está mais ‘low-profile’...

Sim, muito. Já não tenho tanta coisa para dizer. Tive a oportunidade de ter fama, enquanto jovem, e de experimentar muito sucesso. Mais do que alguma vez poderia esperar. Foi antes da crise, com 34 anos de idade, num país muito pequenino, com muitas invejas. Aprende-se muita coisa. Hoje em dia estou casado, estou mais velho, tenho outras prioridades, estou feliz. Tenho uma equipa que está comigo de início e isso dá-me conforto. Hoje em dia quero é trabalhar.

Alguma novidade que queira partilhar?

Sinto que estamos a sair desta crise. Não posso generalizar, mas desde Março que sinto uma energia diferente. Lisboa está-se a tornar uma cidade vibrante, com novos negócios, restaurantes. A Rua cor-de-rosa, Santos, Príncipe Real, Chiado… Parece Nova Iorque nos anos 90. Não é a atitude de um país em crise. É prova viva de que Portugal tem coração forte. Esta crise acabou por filtrar muita gente que era mais conversa do que acção. Hoje em dia só pessoas com acção é que vão sobreviver. O que acaba por ser bom, porque nunca vi um país que confundisse tanto conversa com trabalho e simpatia com eficácia. CLM

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