
Fotografias de Paula Nunes
O que fazem dois ‘chefs’ estrelados juntos? Naturalmente, criam qualquer coisa de fazer crescer água na boca enquanto nós, simples mortais, assistimos, salivamos e voltamos a salivar. Foi exactamente isso o que aconteceu, esta manhã, na residência do embaixador de Espanha, durante um frente a frente – ou melhor, um lado a lado – entre dois dos mais criativos talentos gastronómicos da Península Ibérica: o português José Avillez e o espanhol David Muñoz. De um lado, o nome por detrás do restaurante lisboeta Belcanto – distinguido com uma estrela Michelin menos de um ano depois da reabertura, em 2012 – mas também de projectos como o Cantinho do Avillez, a Pizzaria Lisboa ou o Café Lisboa; do outro a alma inspirada e inspiradora do único restaurante madrileno com três estrelas Michelin, o DiverXo; entre ambos, o objectivo comum de homenagear a gastronomia de ambos os países com um ‘show cooking’ a quatro mãos.

O encontro marcou a abertura do programa “Dias de Moda”, uma semana dedicada à moda organizada pela Embaixada de Espanha. Um evento gastronómico a inaugurar uma semana de moda? E porque não? Afinal de contas, como referiu a criadora Ágata Ruíz de la Prada, uma das presenças no evento, “há uma cada vez maior relação entre a moda e a gastronomia”, quanto mais não seja porque “se uma pessoa estiver bem vestida e, para além disso, comer bem, a felicidade é absoluta”. A felicidade absoluta para quem usufrui do belíssimo resultado de uma mesma “liberdade criativa” que, como lembrou David Muñoz, é partilhada entre uns e os outros.

À mesa do embaixador o talento foi buscar inspiração ao outro lado da fronteira. Assim, José Avillez surpreendeu a assistência com um gaspacho de cereja com cavala fumada, um prato mesmo a chamar o Verão cuja aparente simplicidade obedece, como ele diz, a uma série de processos nada simples que confirmam que a regra do ‘less is more’, afinal, tem muito mais de ‘more’ do que de ‘less’. Já para David Muñoz a escolha fez-se pelo bacalhau, mas numa vertente menos usual em terra lusas: uns ‘callos de bacalao’, ou samos de bacalhau em português, com o seu ‘pil pil’ (um molho emulsionado com azeite e as gelatinas naturais do peixe), ‘jalapeños’, trufas e carabineiros.

No final, conversámos com ambos. Já se conheciam? Sim, já se tinham cruzado em alguns eventos, mas nunca desta maneira. “Foi uma oportunidade que tivemos agora e fiquei muito contente com isso”, confessou José Avillez para quem este tipo de encontros são sempre enriquecedores. “Somos os dois contemporâneos. O David é, sem dúvida um dos expoentes máximos da cozinha espanhola desta geração, tem uma personalidade muito própria na sua cozinha, algo que eu admiro muito. É genial em termos de conceitos e dos pratos que serve e acho que é importante para nós trocarmos experiências. Temos sempre a aprender um com o outro e acho que a seguir a estes encontros sentimo-nos sempre mais ricos”, disse. Para aquele a quem o The New York Times classificou como o “’enfant terrible’ da gastronomia espanhola”, esta experiência valeu por tudo, pelo encontro entre Portugal e Espanha, “que são quase primos-irmãos”, pela possibilidade de trabalhar com José Avillez por quem manifesta “uma grande admiração” e, sobretudo, por mais uma oportunidade para “promover Madrid e explicar às pessoas que esta é uma cidade muito moderna e com grandes propostas gastronómicas”.

Quanto aos pratos criados por um e por outro, José Avillez só lamentou não ter tido oportunidade de provar o bacalhau confeccionado pelo seu congénere porque “tinha muito bom aspecto”, mas deixou a promessa: “Vou lá depois, ao restaurante, comer com ele”. Já David Muñoz não se fez rogado: “Eu provei o gaspacho e estava espectacular”, garantiu. Afinal, “é um prato de grande inspiração espanhola, não?”. IQ
