Sexta-feira, 5 de Dezembro de 2014
05.12.2014 - Por Fora de Série, às 20:03

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Gilles English é um cavalheiro. À parte do ‘british accent’ característico, tem uma simpatia contagiante e uma história de vida impressionante. Nasceu numa família de “engenheiros” e em criança, quando todos os amigos jogavam à bola pelo ‘countryside’ inglês, ele e o irmão brincavam fechados numa oficina onde o pai recuperava relógios e aviões antigos. Claro que a paixão ficou. Por relógios. Por máquinas, no geral. Aviões antigos em particular.

Junto com o irmão mais velho, Nick, Gilles fundou uma manufactura relojoeira onde o traço mais distintivo é a qualidade, o apego aos valores tradicionais e o incontornável ‘britishness’ que os define. Chamaram-lhe Bremont e têm como objectivo ressuscitar a aura de qualidade que um dia – quando o mundo das horas não era liderado pela omnipresente indústria suíça – os relógios ‘made in England’ já tiveram.

Gilles passou por Lisboa há umas semanas, para apresentar o relógio Chivas Bremont, resultado de uma parceria com a marca escocesa de whisky Chivas Regal, com que os irmãos English imediatamente se identificaram. São ambas marcas fundadas por irmãos. Ambas valorizam a tradição, a qualidade, a arte manual, o saber que passa de geração em geração. O resultado desta união? Um relógio mecânico com alma, de seu nome “Bremont Chivalry” que ao aço polido e à pele de crocodilo da caixa e da bracelete, alia pedaços de carvalho usados na maturação dos whiskies Chivas. Da conversa que durou várias horas, fica aqui um resumo.

É apreciador de whisky?

Sou! Ou melhor, hoje sou, mas não fui sempre. É algo que se aprende, pode-se educar o palato. Antes desta colaboração que fizemos coma Chivas, já trabalhávamos com a marca. Em todas as nossas lojas tínhamos bares – bares de whisky Chivas – e sempre sentimos que o nosso cliente-tipo é aquele homem, orgulhoso do seu relógio, com o seu copo de whisky na mão. Sempre sentimos essa ligação entre os relógios e o whisky. É uma ligação que se aprofunda. E eu confesso que quanto mais a aprofundo, mais a aprecio. É uma bebida para se saborear. No início, quando comecei a beber whisky, era um bocado snob, só gostava de ‘single malts’. Mas depois comecei a perceber que não há diferença. Um ‘blend’ é uma mistura de vários ‘single malts’.

 

Se pudesse escolher alguém na história para convidar para beber um whisky, quem seria?

Seria sempre o meu pai. Não me lembro de algum dia ter tomado um copo com ele. Bebemos outras coisas, mas quando ele morreu eu era muito novo para já andar nos whiskies… Eu tinha 23 anos, não era uma criança, mas não tinha aquela maturidade que é necessário para uma verdadeira ‘whisky chat’ (conversa de whisky). Se não fosse ele, teria de ser alguém… o capitão Scott [n.e.: O capitão Robert Falcon Scott foi oficial da Marinha Real Britânica e explorador. Liderou as expedições à Antártida].

Um aventureiro, portanto?

Sim, tem de ser. Ele morreu no Pólo Sul. Teria boas histórias para me contar.

A Chivas Regal dá muita importância a valores que estão ligados aos ideiais cavalheirescos, como a generosidade, a solidariedade, a amizade, a galanteria. Valores a que designaram por ‘chivalry’. Consegue definir essa palavra?

Acho que ‘chivalry’ e ‘gentleman’ são conceitos muito parecidos. Acho que é ter um grande coração, ter alma. Fazer o que está certo em todas as perspectivas da vida. Está tudo no coração. Quando estamos chateados com o trabalho, quando nos zangamos com a nossa mulher… é ter a capacidade de, no final, fazer o que está certo. Isso é ser ‘chivalry’.

E luxo, como definiria?

Luxo é um termo muito difícil de definir, acaba por estar numa área cinzenta, porque luxo pode ser muita coisa. Mas, para mim, tem sempre que ter a ver com exclusividade. Tem a ver com manufactura. Tem a ver com histórias para contar. Gosto de coisas bem feitas.

É um cliente do luxo? Consome?

Eu sou um consumidor de engenharia. Adoro couro, malas de couro. O toque, o cheiro… Adoro carros antigos, porque adoro a forma como são feitos. Os clássicos têm personalidade e valor. Há engenharia ali. Por isso, por oposição, detesto os objectos descartáveis dos tempos modernos. Não são investimentos. Por isso é que não gosto de carros modernos. Com toda aquela electrónica… eu sei que não vão estar cá para me acompanhar daqui a 30 anos.

Considera-se um cavalheiro dos tempos modernos?

Pergunta interessante… Bem, eu sou inglês e os ingleses têm fama de ser mais tradicionais do que modernos… Eu adoro História, mas sou muito progressista, acredito no futuro. Apesar de adorar a tradição, diria que sim, que sou um cavalheiro dos tempos modernos. Definitivamente cavalheiro.

Como seria a noite perfeita?

Teria de ser passada entre velhos amigos, a partilhar gargalhadas e conversa, sem dar pelo tempo passar, sem a pressão do tempo. Mas se me ponho a pensar nisso, também poderia ser passada com novos amigos, pessoas jovens, desde que haja interesses comuns. Sobretudo gosto de passar tempo com a minha família. Eu viajo muito e sabe-me bem voltar para casa e ficar.

Tem algum ‘guilty pleasure’ (um que possa contar…)?

(Risos) Possivelmente será… pilotar aviões. É um ‘guilty pleasure’ desde que me despenhei e estive três meses de cama a recuperar, com três vértebras e um tornozelo partidos. Estou proibido de voar, para já. Voar é um hábito egoísta e arriscado.

O que se vê a fazer daqui a 20 anos?

Essa é fácil: a mesma coisa. Mas gostava que as pessoas, a um nível global, já reconhecessem qualidade da relojoaria britânica.

 

Leia a entrevista na íntegra na edição impressa da Fora de Série de dia 12 de Dezembro