Sábado, 19 de Abril de 2014
19.04.2014 - Por Fora de Série, às 12:44

 

Das muitas qualidades que definem o estilo italiano, a mais importante terá talvez a ver com uma certa atitude. Sonnet Stanfill, curadora da exposição “O ‘Glamour’ da Moda Italiana, 1945-2014”, com inauguração marcada para 5 de Abril no Victoria & Albert Museum (V&A), em Londres, fala em “‘sprezzatura’, ou seja, indolência, desprendimento”. “Há um certo sentido estético, uma atitude. Se for ao centro financeiro de Roma pela manhã, vai perceber o que quero dizer quando falo em sentido estético, aquilo a que gosto de chamar ‘elegância em acção’. É um autêntico desfile de moda”.

Stanfill faz uma resenha histórica nesta mostra, percorrendo a moda italiana desde os seus primórdios, no pós-guerra, até à sua transformação numa potência cultural e económica. “Não houve muitas exposições antológicas da moda italiana, que vive actualmente um ponto de viragem: a produção passou para primeiro plano e surgiu uma nova geração de estilistas. Perante isto, decidimos que era o momento certo para organizar esta mostra”, afirma o director alemão do V&A, Martin Roth.

Como a exposição é patrocinada pela marca de jóias italiana Bulgari, não podia deixar de falar com o seu director executivo, o francês Jean-Christophe Babin. Convidei Roth e Stanfill, que se juntaram a nós para a amena conversa que se seguiu. “Em Itália, tanto podemos comprar um fato numa marca conceituada como mandá-lo fazer num(a) ‘sartoria’. Todas as localidades, de maior ou menor dimensão, têm um alfaiate ou uma costureira e praticamente todos os italianos se lembram que era lá que o pai e o avô mandavam fazer os seus fatos”, refere Babin.

Num país com forte tradição no sector de produção têxtil e uma vasta rede de artesãos, os negócios familiares são um dos pilares, senão mesmo o pilar, do tecido empresarial italiano. Além disso, a tradição também obedece a geografias. Ou seja, há ofícios associados a determinadas zonas do país: Como é a região por excelência da produção de seda, o couro tem a chancela da Toscana, o ofício de ferreiro está ligado a Valenza e por aí adiante. Resumindo, não se pode falar num único estilo italiano, mas sim em vários estilos.

“No centro e sul de Itália, a maneira de vestir é muito influenciada pelo Império Romano, pelos Papas, pelo sol e pela proximidade do Mediterrâneo, enquanto no norte, mais frio e cinzento, e historicamente influenciado pela Áustria, prevalece uma estética mais austera e minimal”, explica Babin. Basta pensar nas diferenças entre o corte estruturado e sóbrio de Armani e a exuberância de inspiração siciliana da dupla Dolce & Gabbana.

 

 

A elegância no vestir é algo intrínseco, inclusive à estrutura política italiana. Babin dá algumas pistas: “No século XI, as cidades de Veneza, Roma, Milão e Florença lideraram a entrada na Renascença. O poder estava nas mãos de diferentes famílias de norte a sul do país e cada uma era dona e senhora de um grémio de artesãos. Os Medici, por exemplo, eram famosos pelos ricos tecidos que produziam e usavam. Em finais do século XVI, essas famílias abastadas governavam as repúblicas italianas e a sua maneira de vestir influenciou fortemente a moda nas diversas cortes europeias”.

Nos séculos seguintes, Itália perdeu o estatuto de líder de moda para a França, mais especificamente Paris, berço da alta-costura. Depois da Segunda Guerra Mundial, nenhum criador italiano conseguiu rivalizar ou destronar nomes como Dior ou Balenciaga. Stanfill lembra que “Itália era um país pobre. A economia ficou de rastos depois da guerra e a maior parte dos italianos não tinha dinheiro para comprar artigos de luxo”.

Na década de 1950 tudo mudou com a entrada em cena do Plano Marshall, nome que designa o pacote de ajuda financeira concedido pelos EUA à Europa, sob a égide do presidente Roosevelt, para ajudar à reconstrução do continente. Em 1951, Giovanni Battista Giorgini, empresário e director de compras para os armazéns norte-americanos, desafiou o domínio da moda francesa “ao convocar todos os ‘designers’ de relevo no país para se associarem e criarem uma colecção”. “Depois, organizou um desfile em Florença e convidou a imprensa e um vasto leque de compradores para assistirem ao mesmo. Foi a primeira semana da moda italiana com público internacional”, relembra Stanfill.

 

 

O estilo italiano passou rapidamente a ser sinónimo de ‘lifestyle’. “Era tudo uma questão de ‘glamour’. Convém não esquecer que, durante a guerra, as pessoas não podiam viajar, por isso, quando visitavam Milão ou Veneza o que viam era a ‘dolce vita’, irresistível e sedutora”, lembra Roth, acrescentando que “esta sensibilidade estética e desejo pelo que é belo no dia-a-dia, no local de trabalho, etc., nasceram em Itália, mas alastraram a todo o mundo nas décadas de 50 e 60”.

Filmes como “Férias em Roma” e “Ben-Hur”, de William Wyler, ou “Cleópatra”, de Mankiewicz, além de terem sido filmados nos famosos estúdios romanos da Cinecittà, tinham no elenco estrelas do firmamento de Hollywood, como Audrey Hepburn e Elizabeth Taylor. Hepburn gostava de ir às compras às lojas Salvatore Ferragamo, enquanto Taylor sucumbia facilmente às jóias da Bulgari. Um dia, Richard Burton gracejou a propósito dessa paixão, dizendo: “A única palavra que Elizabeth sabe em italiano é ‘Bulgari’”.

 

 

“Houve toda uma geração de estilistas que beneficiou da afinidade natural entre a moda e as celebridades. Aliás, foi assim que nasceu o ‘Made In Italy’, uma campanha de marketing transversal a diversas áreas de produção, da moda às lanchas rápidas passando pelo cinema e pelo ‘design’ automóvel. Foi aí que o mundo despertou entusiasticamente para o que de bom se fazia em Itália”, sublinha Stanfill. Os êxitos sucederam-se e Krizia, Missoni, Armani e Valentino afirmaram-se como nomes incontornáveis da moda italiana. Estávamos nos anos de 1960 e 70, a semana da moda transitou de Florença para Milão, a nova capital da moda, e nasceu o que ficou imortalizado como “pronto-a-vestir”.

Na década de 1980, as propostas ‘prêt-à-porter’ de Armani, Krizia, Romeo Gigli, Gianfranco Ferre, Dolce & Gabbana e Versace revolucionaram o mundo da moda e tornaram-se num fenómeno de enorme popularidade. Richard Gere é o homem certo no papel certo em “American Gigolo” – e no fato certo, com assinatura Armani. “Os franceses até podiam ser mais chiques com o ‘Rive Gauche’ do Yves Saint-Laurent, mas o golpe de génio dos italianos foi concentrarem as suas energias no estilo, no material e na qualidade da produção, mesmo que o artigo não fosse feito à mão”.

O problema é que à medida que a moda italiana foi conquistando fama e popularidade, muitas das indústrias das quais tem dependido – coração literal e simbólico do estilo italiano – foram obrigadas a fechar. Anos sucessivos de recessão levaram muitas empresas à falência e deslocalizaram as redes de produção para países como a China.

“O mundo da moda mudou muito ao longo dos anos. Surgiram novos mercados, que trouxeram muito investimento para o país, mas os gostos das pessoas também mudaram. Hoje em dia, as pessoas vivem a um ritmo acelerado e a indústria teve de adaptar-se produzindo ideias e colecções em série, de preferência a um ritmo também ele vertiginoso. Ora, quer o processo criativo quer a qualidade exigem tempo. Seria importante regressarmos a um ritmo mais humano e autêntico. Espero ver uma mudança nesse sentido nos próximos anos”, realça Giorgio Armani.

 

 

“Itália não pode regressar à era das oportunidades ilimitadas que foram os anos de 1980 e 90. A moda italiana continua a ser viável porque os consumidores dos mercados emergentes vêem no ‘Made in Italy’ uma garantia de qualidade”, refere Stanfill. Este rótulo, porém, não é 100% verdadeiro: em muitos casos, os artigos são fabricados no estrangeiro e essa informação nem sempre consta da etiqueta informativa. “Os consumidores, nomeadamente dos mercados emergentes, são pessoas cada vez mais informadas que dão particular atenção à proveniência dos produtos que compram”, acrescenta Stanfill.

A autenticidade é outro aspecto que os consumidores valorizam, visto algumas marcas italianas terem sido compradas por empresas estrangeiras. Dois conglomerados franceses, LVMH e Kering, detêm nomes como a Bulgari, Fendi, Pucci, Bottega Veneta, Gucci e Brioni, e o grupo de investimento Mayhoola, do Qatar, adquiriu a Valentino em Julho de 2012. Stanfill mostra-se optimista: “Este tipo de empresas-mãe tem uma estratégia de compras definida, isto é, investem precisamente porque se trata de uma marca italiana que tem um selo de qualidade associado. Por isso, têm todo o interesse em proteger e acarinhar essa identidade”.

Nos últimos anos não têm surgido novos talentos na moda italiana, o que quer dizer que Milão está sequioso de sangue novo. Na opinião do editor de moda Gianluca Longo – e consultor da actual exposição no Victoria & Albert –, “Itália sempre teve excelentes jovens estilistas, o problema é que são esmagados pelos nomes mais famosos. Durante muitos anos, a Câmara Nacional da Moda Italiana preteriu os jovens talentos pelos estilistas estabelecidos, dando-lhes primazia nas passarelas. Em Londres, quer a escola de moda britânica Central Saint Martins quer o Royal College of Art estimulam a colaboração entre estilistas e alunos de ‘design’ de moda. Têm uma visão completamente diferente. Em Itália não há nada assim”.

 

 

Apesar de tudo, a mudança já está em curso. Em 2007, Linda Loppa, que ensinou na Real Academia de Belas-Artes de Antuérpia e teve como alunos Dries Van Noten e Ann Demeulemeester, foi nomeada directora da Polimoda, a escola de moda de Florença, e pôs em marcha uma nova estratégia de ensino nesta área. Os concursos de novos talentos também têm ajudado a dar visibilidade a novos talentos criativos como Andrea Pompilio, ‘designer’ de roupa para homem. Mas o nome que tem feito mais furor nos últimos tempos é o de Stella Jean, a estilista italo-haitiana que desenha saias compridas ou evasê e vestidos com cinta de vespa usando têxteis africanos, cujas cores, corte e elegância lembram as melhores criações da Prada e da Marni.

Uma nova dinâmica parece ter tomado conta da moda italiana e tudo indica que a exposição antológica no Victoria & Albert não só será um êxito junto do público como uma lição de história e de vida – com (muito) estilo. Longo consegue resumir numa frase toda a nossa conversa: “Para os italianos, a moda é algo tão instintivo como respirar”. Charlotte Sinclair/FT

 

A exposição “The Glamour of Italian Fashion, 1945-2014”, patrocinada pela Bulgari, estará patente no Victoria & Albert Museum até 27 de Julho.

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