Segunda-feira, 13 de Outubro de 2014
13.10.2014 - Por Fora de Série, às 18:05

Quando existe um alto nível de confiança entre um estilista e a ‘make-up artist’ responsável pelo desfile, o processo criativo pode-se tornar incrivelmente (ou aparentemente) simples. A Fora de série acompanhou Filipe Faísca e Antónia Rosa, desde o primeiro teste, no ateliê do criador até ao ‘backstage’ do desfile, no Sábado ao final da tarde.

 

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Na 43ª edição da Moda Lisboa, Filipe Faísca apresentou este Sábado a sua colecção de Primavera/ Verão 2015. Quem tenha presença assídua neste evento, já está habituado ao momento de silêncio quando as luzes se apagam e ao altifalante se ouve “As modelos da Moda Lisboa foram maquilhados com produtos (…) e penteadas com produtos (…)”. Nesta edição as modelos foram maquilhadas com produtos da marca Sephora, que se apresenta, pela primeira vez, como patrocinadora da Moda Lisboa. Responsável pela maquilhagem de todos os desfiles desde a primeira edição está Antónia Rosa, que gere uma equipa de cerca de 30 pessoas. 

 

Dia 3 de Setembro (uma semana antes do desfile)

São 17h30 e no ateliê de Filipe Faísca, está ainda uma modelo de cara lavada sentada na cadeira, enquanto a ‘hairstylist’ Helena Vaz Pereira enrola uma grande tira de musselina de seda à volta da sua cabeça. Dá voltas e voltas, experimenta com sobreposições e aos poucos vai criando uma forma. O tema do desfile é, em poucas palavras, “Call Center”. De alguma forma, traduziu-se num ‘styling’ cuja inspiração é uma mistura entre a mulher dos anos 60 , em particular a actriz francesa Catherine Deneuve, e a mulher muçulmana. É uma mulher que, apesar de estar amarrada, se apresenta como livre, sensual e revolucionária. A peça com que as modelos vão desfilar é uma interpretação da burca, na cor branca, que transmite ao mesmo tempo uma ideia de paz. 

 

“Sabes qual é a diferença entre a mulher que sai de uma operação plástica e um turbante?”, pergunta Filipe Faísca, minutos depois de entrar na loja. A resposta: “É a maneira de pôr, não é a cor”, explica, referindo a importância de que não sejam tão evidentes as transparências, de forma a “não dar a ideia de ligadura”. Depois de um momento de silêncio, em que os três contemplam a modelo, o trabalho recomeça. Depois de concluído, começa a maquilhagem. Até ao momento, Faísca e Antónia Rosa tinham falado por telefone uma vez, na semana antes, sobre o tema e tinham trocado uma imagem de uma mulher com burca. As ligações entre esta mistura de temas, aparentemente distintos, continua em forma de conversa: “Musselina de seda, que já vem de muçulmano”; “Sempre que somos chamados ao telefone é um mistério qualquer, porque não sabemos quem está do outro lado. É dramático”; “Mulher que vive tapada deixa mistérios ”. Por volta das 18h30 o 'look' já está escolhido: uma maquilhae do rosto vgem relativamente simples, com um ‘eyeliner’ forte e sombra branca para dar ênfase aos olhos (como não podia deixar de ser, sendo esta a única partisível).

 

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Antes das 19h00 já está tudo definido. ‘Designer’, ‘hairstylist‘ e ‘make-up artist’ já acertaram os últimos pormenores. A modelo escolhida para fazer o teste já está vestida, penteada e maquilhada, com o ‘look’ que irá aparecer na ‘passerelle’. A próxima vez que se irão encontrar será no ‘backstage’ do desfile. O próximo passo será um rápido ‘briefing’ de cinco minutos, que Antónia Rosa dará à sua equipa, com poucas hora para depois preparar 20 modelos. A equipa, explica, já está oleada. Aqueles que a acompanham há algum tempo, muitos deles alunos, já conhecem a forma como trabalha e se lhes pedir alguma coisa sabem exactamente aquilo que quer. Da mesma forma, a confiança criada ao longo de anos, entre Filipe Faísca e Antónia Rosa é evidente. Em menos de hora e meia o trabalho estava feito. “Eu e a Antónia trabalhamos com a intuição”, explica o criador, acrescentado que o conseguem fazer mesmo que se vejam duas vezes por ano.

 

Faísca x Vasconcelos

A amizade entre Filipe Faísca e Joana Vasconcelos, da qual, segundo o ‘designer’, “o público e a sociedade lisboeta "vão poder usufruir”, resultou num trabalho criativo de colaboração. A artista plástica concebeu uma peça para ser exibida na ‘passerelle’, durante o desfile. A obra, “Call center”, que deu nome à própria colecção, é uma pistola beretta gigante feita de dezenas de telefones fixos antigos. O material escolhido para dar forma à peça simboliza a ideia de que a comunicação hoje nos domina. Faísca relembra uma conversa em que falaram sobre aquilo em que estavam a trabalhar e aperceberam-se de que os dois conceitos estavam ligados. Daí surgiu a proposta feita à artista. Além desta peça, Joana Vasconcelos criou ainda outra, de estilo ‘couture’, para Sofia Aparício (que desfila nesta apresentação) usar mais tarde, durante uma ‘performance’ numa festa privada no ateliê da artista.

 

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 11 de Outubro - Desfile

Desde a visita ao ateliê de Filipe Faísca, uma semana antes, houve algumas pequenas alterações na peça com que as modelos vão desfilar. Em vez de um lenço apertado enrolado à volta da cabeça, é agora algo mais suave, mais solto. Algumas das modelos começam a ser preparadas para o desfile cerca de quatro horas antes. Outras vêm ainda de desfiles anteriores e só podem começar a ser preparadas pouco tempo antes da hora. O espaço do ‘backstage’ é relativamente pequeno e está dividido entre maquilhagem e cabelos. Na zona de maquilhagem são pintadas, ao mesmo tempo, modelos com “burca” e sem “burca”, penteadas e não penteadas. Até modelos de outros desfiles. É uma logística complicada que conta com o trabalho de uma equipa especializada.

 

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A abrir o desfile, Sofia Aparício fez uma actuação à volta dos telefones, pegando em vários ao mesmo tempo de uma forma atordoada. No final, Filipe Faísca veio agradecer de mão dada com a modelo. No meio da ‘passerelle’ Joana Vasconcelos juntou-se ao grupo, que interagiu durante uns segundos com a peça, antes de saírem juntos para o ‘backstage’. CLM